sexta-feira, 20 de abril de 2018

OUTRA DE TIA (COM O FOGUETE)




Entupidas, aquelas tias,
desde a goela ao canal da bunda,
de uma moralidade estável 
que, posta na água, não afunda,

foram, tremendo de prazer,
soltar na rua o seu foguete —
que faz a noite se acender
enquanto o mundo se derrete.

Foram comemorar o evento
que viram na televisão,
como quem descobre um Brasil
(as afoitas da indignação)

em cada manchete ofegante
que o jornal traz todos os dias,
fazendo, sem grande trabalho,
ferver os nervos dessas tias.

Vejam que coisa impressionante!
Vejam que assunto fabular:
as tias com os seus foguetes
clareando a noite sem luar

(como se fosse a nossa mente,
o nosso cérebro embargado
com tanta matéria obstrutiva
que o tempo ali tem despejado) —

mesmo entupidas, desde a goela
ao canal do reto com uma
moralidade algo inefável
com que a gente não se acostuma.

Salve a tevê, que a cada dia
opera o milagre ruidoso
de pôr a girar um volume
tão estável e preguiçoso

transformando-o, como num passe
de mágica (ou truque inaudito),
em barulho, fervura, incêndio,
que acho mais louco que bonito.

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