terça-feira, 10 de abril de 2018

MAIS UMA DE TIA (COM O PERIQUITO)



Volto a ler o meu Olavão,
que tudo sabe, tudo explica
(às vezes com um palavrão,
conforme a sua verve rica).

Volto a ver novela e a cuidar
do filho que lá vai crescendo,
sem nenhum indício palmar
de comunismo nele ardendo.

Volto a podar a samambaia
que até me esquecia de aguar;
e a cerzir a bainha da saia
por um hábito familiar.

Saio do Whatsapp, como um gato
que enterrou sua produção
e agora vai caçar um rato
ou talvez quizilar o cão.

Volto a cuidar do periquito
que há uns vinte dias já não come,
mas que ainda está vivo, acredito
(se é que já não morreu de fome).

Vou rezar a novena inteira
que abandonei no mês passado,
com o clima de bebedeira
onde entrei como num bailado.

Estou calma e pacificada,
como quem cumpriu a missão
que do alto lhe foi confiada,
sob os calores do verão.

Durmo. E sonho com o juiz que vi
dando entrevista ao Roda Viva —
qual surfista lá do Havaí
que a onda leva e traz, à deriva.

Mas se acaso a bandeira rubra
que não trocarei pela verde
(cuja sombra sempre nos cubra,
e cujo lema não me perde)

ameace se estender por sobre
nossas cabeças (tão atentas),
a ruflar sob um céu de cobre
com um movimento de asas lentas;

ou quando soe no ar o clarim
convocando ao combate, à guerra
e a deixar o doce, o pudim
e tudo o mais que a vida emperra,

quando à Pátria se inflija agravo,
retomarei, sem hesitar,
minha luta — mein Kampf — que travo
no telefone celular!

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