sexta-feira, 27 de abril de 2018

MAIS UMA DE TIA (COM A TOMADA)



Capitão Bolsonaro, cadê o senhor?
(Tia transtornada)

Houve uma tia certa vez
que, confundindo com tomada
o que era apenas um focinho,
levou belíssima dentada.

Levou belíssima dentada
e acabou sem ter nesse dia,
por força do ávido acidente,
onde ligar a bateria.

(E onde ligar a bateria
senão naquele duplo furo
do qual havia de jorrar
a luz incerta do futuro?)

A luz incerta do futuro,
que não podia se extinguir,
era nela como um pavio
sem pólvora para explodir.

Sem pólvora para explodir,
foi procurar lá no quartel
uma alma boa que ajudasse
a empurrar esse carrossel.

(Pois empurrar o carrossel
era tarefa que excedia
a pouca força que ela tinha,
exigindo nova energia.

E como ter nova energia
senão ligando em duplo furo
o velho plugue-patriotismo,
com mil promessas de futuro?)

Com mil promessas de futuro
foi que ela, num curto-circuito,
mas sempre altiva e devotada,
mesmo embargado o seu intuito

(e sem noção do seu intuito),
levou duríssima dentada —
que no programa não estava —,
ao confundir com uma tomada

o que não era uma tomada
e no programa não constava:
descobrindo da pior maneira
que certas bocas não têm trava

e que por isso, assim sem trava,
apesar de magra a dentada,
exaurem mais as energias
de uma tia já ressabiada! —

Pobre tia, já ressabiada,
a que o ânimo nunca faltou,
mas que, diante daquele ultraje,
com uma espécie de uivo bradou:

com uma espécie de uivo bradou
e toda a força do pulmão,
em nome da pátria mordida,
clamando pelo capitão:

— Ai, capitão! Ai, capitão!
Cadê o senhor, neste mau dia?
Vem me mostrar o furo certo
onde ligar a bateria!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

OUTRA DE TIA (COM O FOGUETE)




Entupidas, aquelas tias,
desde a goela ao canal da bunda,
de uma moralidade estável 
que, posta na água, não afunda,

foram, tremendo de prazer,
soltar na rua o seu foguete —
que faz a noite se acender
enquanto o mundo se derrete.

Foram comemorar o evento
que viram na televisão,
como quem descobre um Brasil
(as afoitas da indignação)

em cada manchete ofegante
que o jornal traz todos os dias,
fazendo, sem grande trabalho,
ferver os nervos dessas tias.

Vejam que coisa impressionante!
Vejam que assunto fabular:
as tias com os seus foguetes
clareando a noite sem luar

(como se fosse a nossa mente,
o nosso cérebro embargado
com tanta matéria obstrutiva
que o tempo ali tem despejado) —

mesmo entupidas, desde a goela
ao canal do reto com uma
moralidade algo inefável
com que a gente não se acostuma.

Salve a tevê, que a cada dia
opera o milagre ruidoso
de pôr a girar um volume
tão estável e preguiçoso

transformando-o, como num passe
de mágica (ou truque inaudito),
em barulho, fervura, incêndio,
que acho mais louco que bonito.

sábado, 14 de abril de 2018

OS PORCOS



Poemas de Renato Suttana. Em protesto veemente contra a prisão ilegal do ex-presidente Lula. Que o diabo carregue seus perseguidores.

Clique aqui para ler.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

DONA ROSA E SEUS DOIS PARTIDOS



O primeiro chegou dizendo assim:
“Magnólia, ou tu me chamas de santinho
e me dás um lugar no teu jardim,
ou não me terás mais no teu caminho.”

Já o segundo, sisudo e exclusivista,
dizia: “Floridíssima entre as flores,
para, e não banques mais a oportunista,
pois não podes servir a dois senhores!”

O primeiro: “Ó caroável! Ó escorreita!
Fada de que o meu sonho não duvida,
para que caminhar por senda estreita,
se podes ter larguíssima avenida?”

E o segundo (o vestido) lhe dizia:
“Amarílis, ou mudas de atitude
e esqueces teu pendor à maioria,
ou não haverá Cristo que te ajude.”

O primeiro: “Ó magnólia, se tragares
a chuva inteira, em vez de só um pingo,
serás tão mais feliz, ou se lavrares
no sábado também, e no domingo!”

Já o segundo: “Ó magnífica, esse assunto
de seres a biruta do aeroporto,
sempre pronta a aumentar o teu conjunto,
te há de dar um futuro sem conforto.”

Disse o primeiro: “Ó dália, que sentido
existe em só viveres para andar
ou rolar por um trilho definido,
que te leva ao mesmíssimo lugar,

sem diálogo com o mundo, que te acena
e te propõe barganhas de montão
para que tenhas vida mais amena?
Aceita, pois, os termos do acordão!”

E o segundo: “Bem gostas de almoçar
com o magro, o musculoso e o barrigudo.
Mas cabe nesta quadra reparar
que ter pouco é melhor que perder tudo.”

Tudo ouvindo, ela — a suave, a fascinada,
que generosamente se inclinava
para todos os lados, só ocupada
com o que o sentimento seu mandava —,

no caso ponderando atentamente,
até porque os amava por igual,
pôs os olhos em cada pretendente,
e com um sentir magnânimo, imparcial,

assim falou: “Devendo eu escolher
entre duas opções de igual valência,
e dado o temor meu de cometer
injustiça em questão de tal urgência,

de obediente que sou à voz das ruas
e para não me arrepender depois
de ter sido a volúvel, a de luas,
voto com a maioria: escolho os dois!”

terça-feira, 10 de abril de 2018

MAIS UMA DE TIA (COM O PERIQUITO)



Volto a ler o meu Olavão,
que tudo sabe, tudo explica
(às vezes com um palavrão,
conforme a sua verve rica).

Volto a ver novela e a cuidar
do filho que lá vai crescendo,
sem nenhum indício palmar
de comunismo nele ardendo.

Volto a podar a samambaia
que até me esquecia de aguar;
e a cerzir a bainha da saia
por um hábito familiar.

Saio do Whatsapp, como um gato
que enterrou sua produção
e agora vai caçar um rato
ou talvez quizilar o cão.

Volto a cuidar do periquito
que há uns vinte dias já não come,
mas que ainda está vivo, acredito
(se é que já não morreu de fome).

Vou rezar a novena inteira
que abandonei no mês passado,
com o clima de bebedeira
onde entrei como num bailado.

Estou calma e pacificada,
como quem cumpriu a missão
que do alto lhe foi confiada,
sob os calores do verão.

Durmo. E sonho com o juiz que vi
dando entrevista ao Roda Viva —
qual surfista lá do Havaí
que a onda leva e traz, à deriva.

Mas se acaso a bandeira rubra
que não trocarei pela verde
(cuja sombra sempre nos cubra,
e cujo lema não me perde)

ameace se estender por sobre
nossas cabeças (tão atentas),
a ruflar sob um céu de cobre
com um movimento de asas lentas;

ou quando soe no ar o clarim
convocando ao combate, à guerra
e a deixar o doce, o pudim
e tudo o mais que a vida emperra,

quando à Pátria se inflija agravo,
retomarei, sem hesitar,
minha luta — mein Kampf — que travo
no telefone celular!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

OUTRA DE TIA



Depois que o general mostrou
sua bundinha lá no Tuíte,
um fogo interior me tomou
que não sei como aplaque ou quite.

Um fogo interior me tomou
que até parece gasolina;
e é por um nada que não vou
rodar a bolsa numa esquina.

E é por um nada que não vou
soltar foguetes na avenida
ou flertar, juvenil que estou,
com os bolsonauros desta vida.

Ou flertar, juvenil que estou,
em tão incrível estação,
com a foto do juiz que falou
como um astro à televisão.

(Com a foto do juiz que falou
ando a sonhar, de adolescente,
muito porque morta não estou
e ainda tenho um fundinho quente.)

Muito porque morta não estou
e amo as bundas dos generais
(e outras coisas que não mostrou)
ardo agora, cada vez mais.

(E outras coisas que não mostrou
e hoje me dão sonhos ardentes,
como o fogo que me tomou
noutra quadra, sem precedentes.)

Como o fogo que me tomou
e não sei como aplaque ou quite,
depois que o general mostrou
sua coisinha lá no Tuíte,

já não durmo: não sei quem sou
e ando a sonhar com o capitão,
que há de exibir o seu fuzil
na tela da televisão.

domingo, 8 de abril de 2018

ÀS TIAS DO WHATSAPP




Agora que o juiz prolatou
o seu suavíssimo mandado,
que até parece uma ave em voo,
que até parece algum brocado,
voltemos, irmãs, ao de sempre:
ao que não cabe num complô
e não se ajeita num embrulho.
Voltemos ao nosso tricô.

Agora que o país retornou
aos trilhos retos da verdade
de onde, há trinta anos se extraviou
desde que o Ulysses de verdade
mandou escrever sua Carta,
sem lado, sem cor, sem partido
(mas que só o Olavo soube ler),
voltemos ao doce, ao cozido. 

Agora que uma primavera
à brasileira se deslancha,
abrindo-se, como quimera,
sobre nós seu azul sem mancha
que se avista desde a janela;
agora que a estação florida
tem início (apesar do outono),
voltemos a cuidar da vida.

Agora que o juiz, grande artista,
deu a laçada que faltava,
elogiada pelo jurista,
de impoluta (e não chuva brava),
e que o sôfrego general,
tendo ido à rua de pijama,
retorna ao seu morno covil
voltemos ao pesponto, à trama.

Agora que o dono — furioso,
pleno das iras comburentes 
do bordel retomou, trevoso,
os seus negócios procedentes
(depois do memorável brinde),
voltemos, amigas, voltemos,
ao fuxico, ao Whastapp, às rosas,
que vida melhor já não temos.