domingo, 24 de junho de 2018

RELEVANTE (II)



"Sobre o oficialismo, ele disse que há uma grande dependência do Estado na vida brasileira, que se trata, de acordo com ele, de um verdadeiro vício."
(Trecho de notícia da Gazeta do Povo)

Podemos morrer de fome,
podemos morrer de sede:
podemos morrer à míngua
de arroz, de carne, de pão;
e até de tédio morremos
caso acabe a diversão.
Mas de uma coisa, madame,
é bom que ninguém reclame:
não será à míngua de língua
que morreremos.

Podemos morrer de infarto,
de açúcar, de indigestão.
Morremos quando nos falta
o ar para a respiração;
ou na água pereceremos
se na onda o barco trepide.
Mas de uma coisa, senhora,
ninguém descreia ou duvide:
não será à míngua de língua
que morreremos.

Morremos, quando, ao relento,
no inverno a geada nos tolhe:
ou no calor do deserto
por força da insolação;
ou de susto, quando vemos
no escuro uma assombração.
Mas de uma coisa bem sei
que neste país é de lei:
não será à míngua de língua
que morreremos.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

RELEVANTE



... acho que ele, sobretudo fora do Brasil, passou a desempenhar um pouco o papel simbólico do enfrentamento da corrupção em um Estado em que ela havia se tornado sistêmica. Acho que esse símbolo é relevante.
(Luis Roberto Barroso, sobre Sérgio Moro)

Relevante, tal como uma verruga
despontando na cara de algum velho,
é também o agudíssimo conselho
de quem para a justiça nos estuga.

Símbolo ou só coisinha que incomoda,
o importante é entender, nesta aranhagem,
que em meio à indefectível malandragem
ser ilibado é o truque mais da moda —

até porque é difícil ser gigante
numa época em que só campeia a língua,
exausta, em sua faina galopante.

(Ou então que a tornemos num emblema
daquilo que, entre o calo e a simples íngua,
se manifesta aqui como um problema.)

quinta-feira, 21 de junho de 2018

ESTRELA



Habituado, com razão, a críticas elogiosas, também elas com razão, Luís Roberto Barroso mostrou receber muito mal as primeiras críticas negativas.
(Janio de Freitas)

Acostumado só às boas coisas —
boa saúde, bom vinho, bom jantar —,
de ansioso, fui aos ventos atiçar
uma fogueira das mais perigosas.

Correndo o risco de me chamuscar
(coberta a língua já de umas calosas
protuberâncias ásperas, rugosas,
que vêm do muito arder e trabalhar),

ganhei não sei que prêmio inesperado,
que só não se compara ao do outro juiz
que foi em Mônaco divinizado.

Na ambição de acender-me numa estrela,
jorrei na imprensa como um chafariz,
desde a tevê à página amarela.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

LAVANDERIA



Lá tem cassinos, iates, lavagem de dinheiro – e gente brega!
(Paulo Henrique Amorim)


O nome da lavanderia
é Mônaco, dona Maria:

é lá que, com ímpeto e arranco,
se lava mais fundo, mais branco;

é lá que se lava sem mancha
o que depois se leva à prancha.


*

Lava-se lá melhor que em casa:
com um alvor de nuvem, de asa,

com um branco de ovo, de clara,
que não se vê em nenhuma cara.

Lá se lava de um puro branco,
de um branco total, branco franco,

branco de quem se lava inteiro
com cuidado de lavadeiro:

de um branco gelo, branco leite,
branco de noiva antes do enfeite.


*

Se lavas lá o teu lençol,
por exemplo (quarando-o ao sol,

embora o nosso detergente
disso cuide perfeitamente),

levas de brinde, satisfeita,
uma alma mais clara e perfeita.

Se lavas lá a tua anágua,
a tua fronha de um branco água,

se lavas lá toda uma trouxa:
o teu vestido, a tua colcha,

o teu mantel, a tua estola,
tua alvíssima camisola,

levas de brinde a lavação
também da tua condição.


*

Lá é que se lava supremo,
com um branco real, branco prêmio,

branco de quem não tem no lombo
lembrança de tropeço, tombo:

branco de olho, branco de espuma,
branco de garça: branco pluma.

É lá que, inclusive, se lava
a jato, quando a coisa encrava:

a jato, quando impõe a pressa
lavar menos do que interessa.


*

Qualquer que seja o caso, é lá
que hás de lavar teu abadá,

tua camisa, teu vestido
e a camiseta do partido;

que hás de lavar a tua saia
de algum branco que não te traia.

Vai por mim, que não errarás,
que um passo em falso não darás:

se queres branquear tua roupa
no alvejante que nada poupa,

o nome da lavandaria
é Mônaco, dona Maria.

terça-feira, 29 de maio de 2018

REZANDO PELA GASOLINA


Inspirado na foto abaixo, de autor não identificado


Vocês, que têm ainda no tanque
uma gota (a última) durando,
capaz de dar ao carro arranque
para onde quer que forem (vamos?),
não se atrasem: vão se adiantando,
vão mais longe que aquela esquina,
enquanto aqui nos demoramos
rezando pela gasolina.

Vocês, que avançam, competentes,
para dentro de algum futuro
à procura das resplendentes
paisagens de um calor maduro
(que talvez jamais alcancemos),
vão correndo, vão num deslize,
enquanto aqui permanecemos
rezando pelo óleo diesel.

Vocês, que voam pelo céu
nas asas de uma companhia
que as espraia de déu em déu
como num sonho ou fantasia,
vão depressa, procurem ramos
onde pousar a pluma indene —
que aqui terrestres nos quedamos
rezando pelo querosene.

Vocês, que sofrem grande pressa
de ver o mundo e o que ele tem,
cuja ansiedade os arremessa
sobre estradas que vão e vêm
(mas não nos levam, que não vamos,
que em nós a pressa é uma menina) —
vão agora, que aqui ficamos
rezando pela gasolina!

domingo, 27 de maio de 2018

GANCHO



"Agora resta ao Brasil
Ir à lona por nocaute!"
(Lourival Piligra Júnior)

Já não digo que é nocaute,
pois ainda não foi à lona;
mas, se greve ou se locaute,
é barulho que impressiona.

Eu diria é que, de tanto
saracotear junto à corda
tentando causar espanto
na gente que não acorda,

acabou abrindo a guarda
e, com inépcia perfeita,
recebeu resposta parda,

pois levou, perdida a estrela,
na fuça verde-amarela,
um ganchaço de direita.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

DESOBSTRUÇÃO



Temer anuncia uso de Forças Armadas para desobstruir rodovias bloqueadas por caminhoneiros
(Notícia do site SputnikNews)

Usar o Exército como purgante
é coisa que eu não tinha imaginado
nesta época improvável, discrepante,
em que o povo anda tonto, empanzinado.

Se algum remédio houver mais indicado
(ou um tipo mais suave de laxante),
para aliviar a carga impressionante,
convém que seja logo receitado!

Mas chazinhos de funcho é que não cabem,
pois só resolvem bem o entupimento
dos recém-nados, como todos sabem.

(Hora dessas, ejeto o tal Parente,
que, além de me embrulhar, me enche de vento
e me dá cólicas frequentemente.)

sábado, 19 de maio de 2018

FÁBRICA



Obstruída a alternativa, com a qual também se beneficiaria seu grupo político, instalou uma linha de produção de habeas corpus para operadores do PSDB e MDB.
(Maria Cristina Fernandes)

Produzo, sim, produzo fartamente,
produzo em fábrica particular;
e, se a demanda é grande e regular,
terceirizo o serviço eventualmente.

Sábio que sou em artes de salvar
amigos quando entram na corrente
(que ameaça a todos eles arrastar),
lá estarei sempre, ativo e competente.

Para os amigos tudo — eis o meu lema,
que levo adiante sem nenhum problema
e sem medo ao rancor do antagonista.

Se me pedem que livre um corpo, livro-o! —
exceto quando o corpo é de petista,
que esses eu não escrevo no meu livro!

sexta-feira, 18 de maio de 2018

PRINCESA





“Dólar sobe pelo 6º dia seguido e chega a bater 3,77
(Notícia do G1)

Sonhava em ir
à Disneylândia.
Assim novinha
já tinha queda —
ai! — pela estranja,
    tadinha!

Dólar a dois
comprava o pai.
Agora a quatro,
dói quando vem
e mais, se vai —
    ai, ai!
    
Tinha uma queda
pelo Pateta:
queria vê-lo
ao vivo e em cor
à luz correta.
    Que dor!

Agora a quatro
convém pensar:
ou vai ao shopping
ou ao cinema
ou ao jantar.
    Que pena!

(Mas as três coisas
de um golpe só
não cabem mais:
que aquele tempo
ficou lá atrás,
     que dó!)

Se enche o tanque,
não enche a pança;
se compra a roupa,
não há recurso
para ir ao curso
   de dança!

Ou toca a flauta,
ou chupa a cana.
Se vai à feira,
ou compra alface
ou só banana.
    Que impasse!

Com o real fraquinho
e o dólar forte
melhor ficar
em casa a roer
algum franguinho!
    (Que sorte!)

Sonhava em ir
à Disneylândia
ou, de princesa,
dar uma volta
lá pela estranja.
    Tristeza!

quinta-feira, 17 de maio de 2018

A GRALHA



Vestiu smoking e foi a Nova Iorque,
com sua voz de gralha e o mau inglês,
cobrar a glória que ninguém extorque,
ao lado do prefeito — outro freguês.

Tirou foto, posando de galã
para a posteridade embasbacada,
que talvez não resista a essa terçã,
mas por enquanto aguenta outra rodada.

Quando lhe perguntaram se era certo
ir frequentar a estufa onde florescem
plantas que não se dão a céu aberto,

disse só que tais coisas acontecem
e quadram bem, se a sorte oferece o azo.
(E outras implicações não vêm ao caso.)

terça-feira, 8 de maio de 2018

ASSIM É



Nada entende de geopolítica,
não conhece Moniz Sodré;
mas veste a camisa do time
e vai bradar contra o regime,
porque assim sempre foi, e assim é.

Não leu a sentença do Moro,
nem sabe se ela para em pé.
Mas sai à rua, como um rei,
exigindo o rigor da lei,
porque assim sempre foi, e assim é.

Da economia mal enxerga
se sobe ou desce com a maré;
mas, com o bolso sempre vazio,
da bolsa sente o fogo e o fio,
porque assim sempre foi, e assim é.

Ignora o nome do político,
se anda para a frente ou de ré;
mas acorre, incendiado e infrene,
quando soa ao longe a sirene,
porque assim sempre foi, e assim é.

Ouviu, da Corte, que a preside
uma dama em que pouco crê;
e muito a aplaude, se ela faz
alguma graça nos jornais,
porque assim sempre foi, e assim é.

Da esquerda à direita, professa
a opinião que ouviu na tevê;
e entende que mais que eleição
vale um bom tiro de canhão,
porque assim sempre foi, e assim é.

Acha que a cadeia corrige
o mundo inteiro, de A a Z;
e no amigo aposta o seu voto,
como numa extração da loto,
porque assim sempre foi, e assim é.

Quando ouve cantar uma ave
anunciando o fim do que vê,
trepida. Mas, se a noite o guarde,
já esquece o que escutou à tarde,
porque assim sempre foi, e assim é.

Diz-se conservador em tudo
(só lhe faltando o pincenê).
Mas, se é a esquerda que chega lá,
quer que a deponham — para já! —,
porque assim sempre foi, e assim é.

terça-feira, 1 de maio de 2018

ÚLTIMA DE TIA (COM RESPOSTA DO CAPITÃO)



"... labaredas de fogo..."
(MIchel Temer)

— Para acender a tua pólvora
(ou, como queiras, bateria) —
disse, atencioso, o capitão
à desenergizada tia —

(caso este aspecto não alcances
com o teu patriótico tino)
e girar o teu carrossel,
é preciso um terceiro pino

(pois as tomadas de hoje em dia,
por força de incômoda lei,
já não aceitam qualquer plugue,
conforme aqui demonstrarei).

A coisa toda foi tramada
de modo a confundir a mente,
que, como viste nesta quadra,
impõe tática diferente.

Lembrando a cara de um bichinho,
com dois olhos de aspecto fundo
e, no meio, um furo ou focinho
que com o do porco não confundo

(e onde aplicas o aterramento
recomendado pela norma),
toda a estratégia se resume
em acertares com a forma.

Nesse terceiro furo embutes
o cabo de uma neutra fase,
prevenindo que o teu motor,
entre em curto, caso extravase

a descarga da rede e, em surto,
ultrapasse a potência dele,
o que poria em parafuso
o bravo intuito que te impele —

disse-lhe, suave, o capitão,
mostrando a ponta do fuzil
sempre disposto e preparado
para outro 1º de Abril. —

Por didática e até bom senso,
dou-te portanto esta lição
que te há de ser útil, profícua,
quando faças a ligação:

para acender a tua pólvora
(ou, se preferes, bateria) —
é preciso um terceiro furo,
que não é só terceira via,

mas buraco por onde escoe
a energia regurgitada,
caso o excesso de fogo ou carga
entre doido pela tomada,

estragando o teu aparelho
e pondo em risco a tua casa
(que pode virar labareda
ou até acabar em brasa).

Assim, pois, um terceiro pino
te recomendo para a empreita,
como um focinho entre dois olhos:
isto é, um à esquerda e outro à direita.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

MAIS UMA DE TIA (COM A TOMADA)



Capitão Bolsonaro, cadê o senhor?
(Tia transtornada)

Houve uma tia certa vez
que, confundindo com tomada
o que era apenas um focinho,
levou belíssima dentada.

Levou belíssima dentada
e acabou sem ter nesse dia,
por força do ávido acidente,
onde ligar a bateria.

(E onde ligar a bateria
senão naquele duplo furo
do qual havia de jorrar
a luz incerta do futuro?)

A luz incerta do futuro,
que não podia se extinguir,
era nela como um pavio
sem pólvora para explodir.

Sem pólvora para explodir,
foi procurar lá no quartel
uma alma boa que ajudasse
a empurrar esse carrossel.

(Pois empurrar o carrossel
era tarefa que excedia
a pouca força que ela tinha,
exigindo nova energia.

E como ter nova energia
senão ligando em duplo furo
o velho plugue-patriotismo,
com mil promessas de futuro?)

Com mil promessas de futuro
foi que ela, num curto-circuito,
mas sempre altiva e devotada,
mesmo embargado o seu intuito

(e sem noção do seu intuito),
levou duríssima dentada —
que no programa não estava —,
ao confundir com uma tomada

o que não era uma tomada
e no programa não constava:
descobrindo da pior maneira
que certas bocas não têm trava

e que por isso, assim sem trava,
apesar de magra a dentada,
exaurem mais as energias
de uma tia já ressabiada! —

Pobre tia, já ressabiada,
a que o ânimo nunca faltou,
mas que, diante daquele ultraje,
com uma espécie de uivo bradou:

com uma espécie de uivo bradou
e toda a força do pulmão,
em nome da pátria mordida,
clamando pelo capitão:

— Ai, capitão! Ai, capitão!
Cadê o senhor, neste mau dia?
Vem me mostrar o furo certo
onde ligar a bateria!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

OUTRA DE TIA (COM O FOGUETE)




Entupidas, aquelas tias,
desde a goela ao canal da bunda,
de uma moralidade estável 
que, posta na água, não afunda,

foram, tremendo de prazer,
soltar na rua o seu foguete —
que faz a noite se acender
enquanto o mundo se derrete.

Foram comemorar o evento
que viram na televisão,
como quem descobre um Brasil
(as afoitas da indignação)

em cada manchete ofegante
que o jornal traz todos os dias,
fazendo, sem grande trabalho,
ferver os nervos dessas tias.

Vejam que coisa impressionante!
Vejam que assunto fabular:
as tias com os seus foguetes
clareando a noite sem luar

(como se fosse a nossa mente,
o nosso cérebro embargado
com tanta matéria obstrutiva
que o tempo ali tem despejado) —

mesmo entupidas, desde a goela
ao canal do reto com uma
moralidade algo inefável
com que a gente não se acostuma.

Salve a tevê, que a cada dia
opera o milagre ruidoso
de pôr a girar um volume
tão estável e preguiçoso

transformando-o, como num passe
de mágica (ou truque inaudito),
em barulho, fervura, incêndio,
que acho mais louco que bonito.

sábado, 14 de abril de 2018

OS PORCOS



Poemas de Renato Suttana. Em protesto veemente contra a prisão ilegal do ex-presidente Lula. Que o diabo carregue seus perseguidores.

Clique aqui para ler.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

DONA ROSA E SEUS DOIS PARTIDOS



O primeiro chegou dizendo assim:
“Magnólia, ou tu me chamas de santinho
e me dás um lugar no teu jardim,
ou não me terás mais no teu caminho.”

Já o segundo, sisudo e exclusivista,
dizia: “Floridíssima entre as flores,
para, e não banques mais a oportunista,
pois não podes servir a dois senhores!”

O primeiro: “Ó caroável! Ó escorreita!
Fada de que o meu sonho não duvida,
para que caminhar por senda estreita,
se podes ter larguíssima avenida?”

E o segundo (o vestido) lhe dizia:
“Amarílis, ou mudas de atitude
e esqueces teu pendor à maioria,
ou não haverá Cristo que te ajude.”

O primeiro: “Ó magnólia, se tragares
a chuva inteira, em vez de só um pingo,
serás tão mais feliz, ou se lavrares
no sábado também, e no domingo!”

Já o segundo: “Ó magnífica, esse assunto
de seres a biruta do aeroporto,
sempre pronta a aumentar o teu conjunto,
te há de dar um futuro sem conforto.”

Disse o primeiro: “Ó dália, que sentido
existe em só viveres para andar
ou rolar por um trilho definido,
que te leva ao mesmíssimo lugar,

sem diálogo com o mundo, que te acena
e te propõe barganhas de montão
para que tenhas vida mais amena?
Aceita, pois, os termos do acordão!”

E o segundo: “Bem gostas de almoçar
com o magro, o musculoso e o barrigudo.
Mas cabe nesta quadra reparar
que ter pouco é melhor que perder tudo.”

Tudo ouvindo, ela — a suave, a fascinada,
que generosamente se inclinava
para todos os lados, só ocupada
com o que o sentimento seu mandava —,

no caso ponderando atentamente,
até porque os amava por igual,
pôs os olhos em cada pretendente,
e com um sentir magnânimo, imparcial,

assim falou: “Devendo eu escolher
entre duas opções de igual valência,
e dado o temor meu de cometer
injustiça em questão de tal urgência,

de obediente que sou à voz das ruas
e para não me arrepender depois
de ter sido a volúvel, a de luas,
voto com a maioria: escolho os dois!”

terça-feira, 10 de abril de 2018

MAIS UMA DE TIA (COM O PERIQUITO)



Volto a ler o meu Olavão,
que tudo sabe, tudo explica
(às vezes com um palavrão,
conforme a sua verve rica).

Volto a ver novela e a cuidar
do filho que lá vai crescendo,
sem nenhum indício palmar
de comunismo nele ardendo.

Volto a podar a samambaia
que até me esquecia de aguar;
e a cerzir a bainha da saia
por um hábito familiar.

Saio do Whatsapp, como um gato
que enterrou sua produção
e agora vai caçar um rato
ou talvez quizilar o cão.

Volto a cuidar do periquito
que há uns vinte dias já não come,
mas que ainda está vivo, acredito
(se é que já não morreu de fome).

Vou rezar a novena inteira
que abandonei no mês passado,
com o clima de bebedeira
onde entrei como num bailado.

Estou calma e pacificada,
como quem cumpriu a missão
que do alto lhe foi confiada,
sob os calores do verão.

Durmo. E sonho com o juiz que vi
dando entrevista ao Roda Viva —
qual surfista lá do Havaí
que a onda leva e traz, à deriva.

Mas se acaso a bandeira rubra
que não trocarei pela verde
(cuja sombra sempre nos cubra,
e cujo lema não me perde)

ameace se estender por sobre
nossas cabeças (tão atentas),
a ruflar sob um céu de cobre
com um movimento de asas lentas;

ou quando soe no ar o clarim
convocando ao combate, à guerra
e a deixar o doce, o pudim
e tudo o mais que a vida emperra,

quando à Pátria se inflija agravo,
retomarei, sem hesitar,
minha luta — mein Kampf — que travo
no telefone celular!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

OUTRA DE TIA



Depois que o general mostrou
sua bundinha lá no Tuíte,
um fogo interior me tomou
que não sei como aplaque ou quite.

Um fogo interior me tomou
que até parece gasolina;
e é por um nada que não vou
rodar a bolsa numa esquina.

E é por um nada que não vou
soltar foguetes na avenida
ou flertar, juvenil que estou,
com os bolsonauros desta vida.

Ou flertar, juvenil que estou,
em tão incrível estação,
com a foto do juiz que falou
como um astro à televisão.

(Com a foto do juiz que falou
ando a sonhar, de adolescente,
muito porque morta não estou
e ainda tenho um fundinho quente.)

Muito porque morta não estou
e amo as bundas dos generais
(e outras coisas que não mostrou)
ardo agora, cada vez mais.

(E outras coisas que não mostrou
e hoje me dão sonhos ardentes,
como o fogo que me tomou
noutra quadra, sem precedentes.)

Como o fogo que me tomou
e não sei como aplaque ou quite,
depois que o general mostrou
sua coisinha lá no Tuíte,

já não durmo: não sei quem sou
e ando a sonhar com o capitão,
que há de exibir o seu fuzil
na tela da televisão.

domingo, 8 de abril de 2018

ÀS TIAS DO WHATSAPP




Agora que o juiz prolatou
o seu suavíssimo mandado,
que até parece uma ave em voo,
que até parece algum brocado,
voltemos, irmãs, ao de sempre:
ao que não cabe num complô
e não se ajeita num embrulho.
Voltemos ao nosso tricô.

Agora que o país retornou
aos trilhos retos da verdade
de onde, há trinta anos se extraviou
desde que o Ulysses de verdade
mandou escrever sua Carta,
sem lado, sem cor, sem partido
(mas que só o Olavo soube ler),
voltemos ao doce, ao cozido. 

Agora que uma primavera
à brasileira se deslancha,
abrindo-se, como quimera,
sobre nós seu azul sem mancha
que se avista desde a janela;
agora que a estação florida
tem início (apesar do outono),
voltemos a cuidar da vida.

Agora que o juiz, grande artista,
deu a laçada que faltava,
elogiada pelo jurista,
de impoluta (e não chuva brava),
e que o sôfrego general,
tendo ido à rua de pijama,
retorna ao seu morno covil
voltemos ao pesponto, à trama.

Agora que o dono — furioso,
pleno das iras comburentes 
do bordel retomou, trevoso,
os seus negócios procedentes
(depois do memorável brinde),
voltemos, amigas, voltemos,
ao fuxico, ao Whastapp, às rosas,
que vida melhor já não temos.