segunda-feira, 30 de julho de 2018

SONETO COM #LULALIVRE



a Chico Buarque e Gilberto Gil

Depois de ter escrito exatamente
duzentos indigestos (mas glutões)
sonetos, que as polpudas repleções
entopem, sem prover o efervescente,

só me resta propor outro expediente
que há de ser a melhor das soluções 
para o circuito das indigestões
em que se atola o país presentemente:

resta-me receitar como remédio —
quer o embargue a justiça, quer a imprensa
faça careta e mostre o dedo médio —,

para que o povo, cuja alma é imensa,
de tão comprida encantação se livre,
uma dose geral de #LulaLivre!

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Indigestos e Purgativos (edição completa)



Atenção, leitores! A partir de hoje, a coletânea Indigestos e Purgativos passa a existir numa versão única, reunindo as três séries de sonetos publicadas até agora.

A edição final foi acrescentada de dez sonetos e pode ser baixada gratuitamente a partir deste link:

http://www.arquivors.com/renato_indigestos.pdf

Boa leitura!




PROFISSÃO



Na entrevista ao Bom Dia Brasil, Miriam Leitão, Ana Paulo Araújo e Chico Pinheiro fizeram aproximadamente OITENTA E DUAS interrupções à fala de Dilma durante os 30 minutos e meio de entrevista.
(Trecho de notícia do site Muda Mais)

Interrompo, intercalo sem parar.
Não me contenho frente à imperiosa
Tentação de brecar poesia e prosa
Em nome, só, da gana de brecar.

Reduzo a marcha de qualquer motor.
Retraso, imponho a quem já mal estuga
Uma velocidade tartaruga,
Provando qual é o meu final valor.

Tomo a rédea do empaque, vou puxando
O freio de quem sai em disparada.
Resfrio a brasa e a pressa desbragada
De quem quer avançar, se acelerando.

Entupo, obstruo, atulho: ponho embargo
E embargo eu mesmo, impondo ordem ao dia.
Não dou corda a ansiedade ou fantasia,
Travado e troncho sob o enorme encargo.

Retranco, em sendo o caso, a cada passo.
E empurro, se preciso, dou rasteira:
Vou no calcâneo, vou na caneleira,
Inflado o papo, e ocupo todo o espaço.

Sou assim: não me rendo a uma evidência.
Travo o trote, a catraca ou a engrenagem,
Atrasando a partida e a decolagem,
Sem compromisso com qualquer urgência.

sábado, 30 de junho de 2018

COMILANÇAS E DIETAS



O problema no Brasil é que prevaleceu a tese de que o Direito é o que os tribunais dizem que é.
(Lenio Streck)

O casuísmo é uma espécie de alimento
da qual se farta um crente — à repleção,
até que vem o inóspito momento
em que o jorro extravasa, em borbotão.

Inútil receitar comedimento,
quando há tanta fartura no surrão
ou se, por puro amor do experimento,
o estômago é nosso único patrão.

No entanto cabe às vezes um refreio,
que implica achar na lei o que é legal,
sem nenhum exagero do recheio.

Isso aumenta, de um modo natural,
a gana de engolir outra bocada,
como após uma dieta demorada.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

PSICOFOBIA



O ministro Fachin deve ser analisado psiquicamente: não sabe distinguir um ladrão correndo com mala cheia de dinheiro de um Lula, preso político, contra o qual não se apresentou nenhuma conta aqui ou fora com dinheiro roubado. Onde está o seu juízo?
(Leonardo Boff)

Eu é que não me atrevo a analisar,
procurando algum juízo nesta massa.
Melhor é crer que um dia o embrulho passa
(ou, pelo menos, muda de lugar).

Mas gastar meu tutano com fumaça
ou doença que não há como sanar
sai mais caro que apenas me encharcar
de algum laxante forte que há na praça.

Por isso é que sossego e, calmamente,
deixo que a natureza siga em frente,
fazendo o seu trabalho costumeiro.

Do contrário, vou eu para o hospital
ou lugar até pior, que vejo mal —
se não for mesmo para o derradeiro.

terça-feira, 26 de junho de 2018

VERMINOSE



O princípio da ‘colegialidade’ só vale contra a gente. O verme impede que seus pares apreciem a matéria.
(Wilson Ramos Filho, no Twitter)

Vermífugo não basta a este momento
tão sem medida, freio, escopo e crivo.
É preciso um valente purgativo
que ajude a destravar o pensamento.

É preciso bem mais que um argumento
ou dieta de bom senso e bom motivo:
cumpre aplicar também um vomitivo
que dê a cada coisa vazamento.

Nesta hora tão repleta, empanzinada,
em que só vige a urgência de engordar
o verme interno, entre uma e outra rodada,

é preciso lavar profundamente,
de um jorro só, cada intestino e mente
com um laxante extremo, fabular!

domingo, 24 de junho de 2018

RELEVANTE (II)



"Sobre o oficialismo, ele disse que há uma grande dependência do Estado na vida brasileira, que se trata, de acordo com ele, de um verdadeiro vício."
(Trecho de notícia da Gazeta do Povo)

Podemos morrer de fome,
podemos morrer de sede:
podemos morrer à míngua
de arroz, de carne, de pão;
e até de tédio morremos
caso acabe a diversão.
Mas de uma coisa, madame,
é bom que ninguém reclame:
não será à míngua de língua
que morreremos.

Podemos morrer de infarto,
de açúcar, de indigestão.
Morremos quando nos falta
o ar para a respiração;
ou na água pereceremos
se na onda o barco trepide.
Mas de uma coisa, senhora,
ninguém descreia ou duvide:
não será à míngua de língua
que morreremos.

Morremos, quando, ao relento,
no inverno a geada nos tolhe:
ou no calor do deserto
por força da insolação;
ou de susto, quando vemos
no escuro uma assombração.
Mas de uma coisa bem sei
que neste país é de lei:
não será à míngua de língua
que morreremos.