quarta-feira, 6 de junho de 2018

LAVANDERIA



Lá tem cassinos, iates, lavagem de dinheiro – e gente brega!
(Paulo Henrique Amorim)


O nome da lavanderia
é Mônaco, dona Maria:

é lá que, com ímpeto e arranco,
se lava mais fundo, mais branco;

é lá que se lava sem mancha
o que depois se leva à prancha.


*

Lava-se lá melhor que em casa:
com um alvor de nuvem, de asa,

com um branco de ovo, de clara,
que não se vê em nenhuma cara.

Lá se lava de um puro branco,
de um branco total, branco franco,

branco de quem se lava inteiro
com cuidado de lavadeiro:

de um branco gelo, branco leite,
branco de noiva antes do enfeite.


*

Se lavas lá o teu lençol,
por exemplo (quarando-o ao sol,

embora o nosso detergente
disso cuide perfeitamente),

levas de brinde, satisfeita,
uma alma mais clara e perfeita;

se lavas lá a tua anágua,
a tua fronha de um branco água,

se lavas lá toda uma trouxa:
o teu vestido, a tua colcha,

o teu mantel, a tua estola,
tua alvíssima camisola,

levas de brinde a lavação
também da tua condição.


*

Lá é que se lava supremo,
com um branco real, branco prêmio,

branco de quem não tem no lombo
lembrança de tropeço, tombo:

branco de olho, branco de espuma,
branco de garça: branco pluma.

É lá que, inclusive, se lava
a jato, quando a coisa encrava:

a jato, quando impõe a pressa
lavar menos do que interessa.


*

Qualquer que seja o caso, é lá
que hás de lavar teu abadá,

tua camisa, teu vestido
e a camiseta do partido;

que hás de lavar a tua saia
de algum branco que não te traia.

Vai por mim, que não errarás,
que um passo em falso não darás:

se queres branquear tua roupa
no alvejante que nada poupa,

o nome da lavandaria
é Mônaco, dona Maria.

terça-feira, 29 de maio de 2018

REZANDO PELA GASOLINA


Inspirado na foto abaixo, de autor não identificado


Vocês, que têm ainda no tanque
uma gota (a última) durando,
capaz de dar ao carro arranque
para onde quer que forem (vamos?),
não se atrasem: vão se adiantando,
vão mais longe que aquela esquina,
enquanto aqui nos demoramos
rezando pela gasolina.

Vocês, que avançam, competentes,
para dentro de algum futuro
à procura das resplendentes
paisagens de um calor maduro
(que talvez jamais alcancemos),
vão correndo, vão num deslize,
enquanto aqui permanecemos
rezando pelo óleo diesel.

Vocês, que voam pelo céu
nas asas de uma companhia
que as espraia de déu em déu
como num sonho ou fantasia,
vão depressa, procurem ramos
onde pousar a pluma indene —
que aqui terrestres nos quedamos
rezando pelo querosene.

Vocês, que sofrem grande pressa
de ver o mundo e o que ele tem,
cuja ansiedade os arremessa
sobre estradas que vão e vêm
(mas não nos levam, que não vamos,
que em nós a pressa é uma menina) —
vão agora, que aqui ficamos
rezando pela gasolina!

domingo, 27 de maio de 2018

GANCHO



"Agora resta ao Brasil
Ir à lona por nocaute!"
(Lourival Piligra Júnior)

Já não digo que é nocaute,
pois ainda não foi à lona;
mas, se greve ou se locaute,
é barulho que impressiona.

Eu diria é que, de tanto
saracotear junto à corda
tentando causar espanto
na gente que não acorda,

acabou abrindo a guarda
e, com inépcia perfeita,
recebeu resposta parda,

pois levou, perdida a estrela,
na fuça verde-amarela,
um ganchaço de direita.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

DESOBSTRUÇÃO



Temer anuncia uso de Forças Armadas para desobstruir rodovias bloqueadas por caminhoneiros
(Notícia do site SputnikNews)

Usar o Exército como purgante
é coisa que eu não tinha imaginado
nesta época improvável, discrepante,
em que o povo anda tonto, empanzinado.

Se algum remédio houver mais indicado
(ou um tipo mais suave de laxante),
para aliviar a carga impressionante,
convém que seja logo receitado!

Mas chazinhos de funcho é que não cabem,
pois só resolvem bem o entupimento
dos recém-nados, como todos sabem.

(Hora dessas, ejeto o tal Parente,
que, além de me embrulhar, me enche de vento
e me dá cólicas frequentemente.)

sábado, 19 de maio de 2018

FÁBRICA



Obstruída a alternativa, com a qual também se beneficiaria seu grupo político, instalou uma linha de produção de habeas corpus para operadores do PSDB e MDB.
(Maria Cristina Fernandes)

Produzo, sim, produzo fartamente,
produzo em fábrica particular;
e, se a demanda é grande e regular,
terceirizo o serviço eventualmente.

Sábio que sou em artes de salvar
amigos quando entram na corrente
(que ameaça a todos eles arrastar),
lá estarei sempre, ativo e competente.

Para os amigos tudo — eis o meu lema,
que levo adiante sem nenhum problema
e sem medo ao rancor do antagonista.

Se me pedem que livre um corpo, livro-o! —
exceto quando o corpo é de petista,
que esses eu não escrevo no meu livro!

sexta-feira, 18 de maio de 2018

PRINCESA





“Dólar sobe pelo 6º dia seguido e chega a bater 3,77
(Notícia do G1)

Sonhava em ir
à Disneylândia.
Assim novinha
já tinha queda —
ai! — pela estranja,
    tadinha!

Dólar a dois
comprava o pai.
Agora a quatro,
dói quando vem
e mais, se vai —
    ai, ai!
    
Tinha uma queda
pelo Pateta:
queria vê-lo
ao vivo e em cor
à luz correta.
    Que dor!

Agora a quatro
convém pensar:
ou vai ao shopping
ou ao cinema
ou ao jantar.
    Que pena!

(Mas as três coisas
de um golpe só
não cabem mais:
que aquele tempo
ficou lá atrás,
     que dó!)

Se enche o tanque,
não enche a pança;
se compra a roupa,
não há recurso
para ir ao curso
   de dança!

Ou toca a flauta,
ou chupa a cana.
Se vai à feira,
ou compra alface
ou só banana.
    Que impasse!

Com o real fraquinho
e o dólar forte
melhor ficar
em casa a roer
algum franguinho!
    (Que sorte!)

Sonhava em ir
à Disneylândia
ou, de princesa,
dar uma volta
lá pela estranja.
    Tristeza!

quinta-feira, 17 de maio de 2018

A GRALHA



Vestiu smoking e foi a Nova Iorque,
com sua voz de gralha e o mau inglês,
cobrar a glória que ninguém extorque,
ao lado do prefeito — outro freguês.

Tirou foto, posando de galã
para a posteridade embasbacada,
que talvez não resista a essa terçã,
mas por enquanto aguenta outra rodada.

Quando lhe perguntaram se era certo
ir frequentar a estufa onde florescem
plantas que não se dão a céu aberto,

disse só que tais coisas acontecem
e quadram bem, se a sorte oferece o azo.
(E outras implicações não vêm ao caso.)